Já tinha me convencido que eu ia deixar o blog abandonado, afinal, to sentada na minha cama em Sao Leopoldo, e a única coisa da Colombia que tem perto de mim é uma pulserinha amarela-azul-vermelha no meu pulso direito... afinal, já voltei da Colombia, estive no Brasil, fui pra Malásia e voltei pra casa outra vez... que sentido tem ficar contando coisas que já passaram há mais de um mes, quando agora elas parecem tao longe?
Mas quando resolvi organizar as minhas fotos ao som de Bacilos (banda colombiana), bateu aquela saudades... e resolvi que tem coisas que valem sim a pena ser contadas, nem que seja pra mim mesma voltar a ler em uns anos, e sentir de novo essa vontade estranha de sorrir e chorar ao mesmo tempo.
Por sorte, ou pra quem nao acredita em sorte, talvez porque a lua tava com o alinhamento certo em relaçao a Porto Alegre no dia que eu nasci, ou no dia que eu comprei a passagem pra Colombia, a minha última semana em Medellín caiu justamente na Feria de Flores.
A Feira das Flores, numa traduçao desnecessária, é um festival que acontece em Medellín todos os anos, e é uma excelente mistura de cultura, farra, bebedeira, sujeira, tradiçao, pessoas, estrangeiros, música, dança e tudo mais... mistura o carnaval de Salvador com um festival de teatro tipo o Porto Alegre em cena, e é mais ou menos isso. Além de tudo, também é um festival um tanto regionalista, quando os "paisas" ficam ainda mais bairristas
Pra mim a Feria de Flores começou já no show de abertura. Fogos de artifício, fila pra entrar no show grátis, vendedores de cerveja na rua, todos os tipos de povo reunidos ao redor de um palco, esperando a diversao começar. Sabe o tipo de evento que nunca se vai porque é "puro povao"? Esse mesmo! E me diverti pra valer, nao sei se pela vodka da Varvara, pelas fotos bizarras do Saqib, ou pelos passos de merengue sem noçao que o Gato insistia em me ensinar.

Talvez o evento mais esperado da Feria de Flores, no dia seguinte foi a cavalgada. É, de fato tem cavalos, e cheiram como cavalos... e tem milhoes de pessoas vendendo chapéus e ponchos antioqueños (qualquer semelhança com a cultura gaúcha é mera coincidencia... e coincidencias acontecem mais do que a gente espera). Basicamente, me senti num desfile de 20 de setembro (dia da "independencia" gaúcha, pros estrangeiros aqui). Tirando o fato de que a cavalgada nao é mais do que um pretexto pra juntar as pessoas, beber, dar risada... pasar bueno, como se diz por lá!

Durante a semana, os eventos sao um pouco mais calmos. Fui num festival de "cuenteros", que sao mini monólogos, onde vários artistas contam cada um uma história de 5-10 minitos, que pode ser triste, engraçada, dramática, sem graça, feliz. Também fui num show de música negra e em um de música tradicional colombiana, vi um pedaço de um show de humor saíndo da última prova que fiz na universidade, e fui num festival de trova que era rodeado por estandes dos povoados de Antioquia (estado onde fica Medellín), meio estilo Sao Leopoldo fest o clima do lugar.
Quem le esse blog com alguma frequencia já deve estar cansado de ler isso, mas eu nao canso de repetir: ADORO a quantidade de coisas culturais que tem em Medellín, ainda mais que tudo isso era grátis. E parece que nao sou a única pessoa que aproveita isso da cidade... nao importava o dia ou a hora, todos esses eventos tavam cheios!
Já pro final da Feira, outro dos eventos principais: o desfile dos silleteiros. Essa é a parte tradiçao do festival, entao merece uma explicaçao: silla significa cadeira. Silleteiro seria algo do tipo "cadeireiro", mas como isso fica feio pra caramba, sigo com silleteiros. Eles eram, antigamente, pessoas que traziam uma cadeira nas costas, onde se sentavam as pessoas ricas, sendo alegremente transportadas do seu povoado até a cidade. Como felizmente hoje em dia existem meios de transporte mais convenientes, os silleteiros resolveram usar as suas cadeiras pra transportar flores! E resolveram ganhar dinheiro com isso, criando desenhos lindos com essas flores, e organizando um desfile a cada ano, onde as melhores silletas sao premiadas. Eles fazem coisas incríveis só com flores, é super bonito de ver!
Pra completar as tradiçoes da cidade com tradiçoes da AIESEC, a cada ano a AIESEC de Medellín organiza a "Chiva del amor". Chivas sao uns onibuzinhos esquisitos e coloridos, que antigamente eram usados pra transportar frutas, etc. Hoje em dia, eles alugam as chivas pra fazer festa. Basicamente, com um grupo grande de amigos, tu aluga uma chiva, decide o roteiro, poe musica, compra bebida... e tem uma festa passeando pela cidade! E o amor... bom, amor nao sei, mas diversao certamente se encontra no meio de tudo isso! 

No penultimo dia, tem um desfile de carros antigos, que eu vi entre colocar as roupas na mala e sair pra doar as coisas que nao cabiam na mala pra quem pode precisar delas de agora em diante.
Domingo de manha, ainda meio de ressaca depois de tudo isso, acordei no meu quarto já meio vazio, com um papel na bolsa cheio de recadinhos de despedida dos meus amigos, que eu prometi só ler no aviao. Almocei na pizzaria que vende a maior e mais barata pizza do mundo pela última vez, assisti qualquer filme aleatório no cinema com amigos que apesar de estar sem dinheiro tiraram o dia pra sair comigo, nao sei se conscientes ou nao de que tavam fazendo a sua boa açao do dia.

Quando todo mundo tava se recuperando da Feria de Flores pra continuar o dia a dia, eu tava no onibus em direçao a Bogotá, me preparando pra 1 semana em Bogotá, 24h em casa com a minha família, 3 semanas na Malásia, e o começo de um dia a dia que eu ainda nao consigo imaginar exatamente como vai ser. Hasta pronto, Medellín!













